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Dia Mundial da Justiça Social: desigualdade extrema aprofundou-se na pandemia

By 20 de fevereiro de 2022No Comments
Dia Mundial da Justiça Social: desigualdade extrema aprofundou-se na pandemia

Instituído pela ONU em 2007, o Dia Mundial da Justiça Social é comemorado em 20 de fevereiro. Em 2022, terceiro ano da pandemia de Covid-19, não há o que festejar, já que o coronavírus, além de adoecer e matar, ajudou a aprofundar a desigualdade no mundo inteiro. Não se veem ações governamentais decisivas na direção de mais justiça social, seja o conceito entendido como equilíbrio socioeconômico, seja referente a questões identitárias. A exploração econômica segue firme, bem como as discriminações e as violências motivadas por diferenças de gênero e etnia.

A organização não-governamental global Oxfam, uma das mais atuantes no campo dos direitos humanos, elaborou um aprofundado estudo a ser apresentado na edição de 2022 do Fórum de Davos, que acontece em maio. As equipes da ONG trabalharam durante dois anos à sombra da pandemia. E chegaram a conclusões assustadoras.

Eis alguns números que sintetizam a alentada pesquisa da Oxfam, intitulado “A Desigualdade Mata”, um volume de 60 páginas. Entre 2020 e 2021, a riqueza dos 10 homens mais ricos do mundo dobrou, enquanto a renda de 99% da humanidade diminuiu. A fortuna de 252 homens supera a riqueza combinada de todas as mulheres e meninas de África, América Latina e Caribe, que somam 1 bilhão de pessoas. Desde 1995, o 1% mais rico do globo acumulou quase 20 vezes mais riqueza do que os 50% mais pobres.

Segundo a Oxfam, os Estados Unidos constituem um belo modelo de injustiça social: lá, 3,4 milhões de americanos negros estariam vivos hoje se a expectativa de vida deles fosse igual à dos brancos – isso, depois da Covid-19. Antes, esse número era de 2,1 milhões.

Em sintonia com o que já demonstrou o célebre economista francês Thomas Pilketty em seu best-seller “O Capital no Século XXI”, a solução para a desigualdade extrema poderia vir por meios tributários. Segundo estima a Oxfam no estudo mencionado, “um imposto único de 99% sobre o aumento repentino nos lucros decorrentes da Covid-19 obtidos pelos 10 homens mais ricos do mundo poderia pagar vacinas suficientes para todo o mundo e preencher as lacunas de financiamento em medidas climáticas, de saúde universal e proteção social e nos esforços para combater a violência de gênero em mais de 80 países, enquanto ainda deixaria esses homens com US$ 8 bilhões a mais do que tinham antes da pandemia”.

No Brasil, a Universidade Federal de São Paulo lançou no fim de 2021 o trabalho “Desigualdades e Vulnerabilidades na Epidemia de Covid-19: Monitoramento, Análise e Recomendações”, centrado em bairros de classes baixa e média da Região Metropolitana de São Paulo. De certa forma, o estudo, capitaneado por Lumena Furtado, coordenadora do Laboratório de Saúde Coletiva da Unifesp, demonstra cientificamente que a miséria que se vê nas ruas paulistanas não é acidental, mas construída. “A pandemia não foi sentida da mesma forma pelas diferentes categorias profissionais e pelas diferentes classes sociais”, disse Lumena à reportagem da CAASP.

Os dados apurados pela Unifesp, mediante documentação fotográfica, pesquisa de campo e depoimentos, revelaram, em plena pandemia, a sobrelotação das moradias – ao menos uma em cada sete em condições insalubres, ou seja, sem ventilação ou iluminação natural. Também verificou-se falta de água tratada em algumas comunidades.

O estudo “Desigualdades e Vulnerabilidades na Epidemia de Covid-19” (versão completa AQUI) também detectou aumento da violência ou do risco de violência doméstica; a perda de renda e de emprego (os sem-trabalho chegam a 56%), situação agravada com a redução do auxílio emergencial; 71% dos trabalhadores sem alternativa de trabalho remoto (home office) e dependendo de transporte público (um dos grandes focos de contaminação).

A Universidade Federal de São Paulo ainda flagrou “maior sobrecarga feminina no trabalho doméstico e nos cuidados com a família; aumento do nível de estresse, cansaço mental, sofrimento, uso de medicamentos e drogadição; aumento do preço e dos gastos com alimentação e gás de cozinha, levando a redução e espaçamento das refeições (62% reportaram estar se alimentando menos do que o necessário, sendo que 31% só fazem duas refeições ao dia); mudança da forma de abordagem e da violência policial (…)”.

Ao lançar em 2017 o livro “A Elite do Atraso”, o sociólogo Jessé Souza provocou bastante polêmica. Mas o trecho a seguir, retirado da obra, mostra-se inquestionável pelo caminhar da História e a mera observação da realidade: “Como somos formados, como seres humanos, pela imitação e incorporação pré-reflexiva e inconsciente daqueles que amamos e que cuidam de nós, ou seja, os nossos pais ou quem exerça as mesmas funções, a classe e seus privilégios ou carências são reproduzidos a cada geração. Como ninguém escolhe o berço onde nasce, é a sociedade que deve se responsabilizar pelas classes que foram esquecidas e abandonadas. Foi isso que fizeram, sem exceção, todas as sociedades que lograram desenvolver-se de forma minimamente igualitária. No caso brasileiro, as classes populares não foram abandonadas simplesmente. Elas foram humilhadas, enganadas, tiveram sua formação familiar conscientemente prejudicada e foram vítimas de todo tipo de preconceito, seja na escravidão, seja hoje em dia – essa é a nossa diferença em relação à Europa que admiramos”.